A inovação é disruptiva porque tem o poder de multiplicar a melhoria e criar novos negócios

A inovação é disruptiva porque tem o poder de multiplicar a melhoria e criar novos negócios

Um historiador liberal clássico brasileiro da década de 40, Viana Moog, nos deixou uma obra interessante, embora não pertença ao cânone da historiografia brasileira. Num capítulo de “Bandeirantes e Pioneiros”, ele faz um exercício comum na época: tentar estabelecer paralelos entre o subdesenvolvimento brasileiro comparado à pujança tecnológica e econômica norte-americana.

A parte interessante que gostaria de mencionar, sem qualquer juízo de valor, é a abordagem histórica das técnicas de produção de um e outro país. Moog demonstra como a quantidade de ferramentas utilizadas na América, em comparação aos processos de produção artesanais e históricos no Brasil, explicava nossas dificuldades de escala, melhoria, padronização, enfim, preceitos que elevam uma atividade a um estado da arte.

Em um exemplo dessa obra, Moog compara as ferramentas ao alcance de um pioneiro e de um bandeirante nas duas colônias no século XVII. O pioneiro, diferente do bandeirante, possuía uma infinidade de variações de uma mesma ferramenta, com diferentes tamanhos, funções e aplicações, refletindo um intercâmbio técnico em séculos de história. No campo, enquanto nosso arado arcaico ibérico exauria a terra, diversas outras ferramentas no país do norte permitiam um uso menos agressivo e mais produtivo do solo.

É patente, ao longo dos séculos, nosso precário acesso às tecnologias e técnicas de produção, mas também uma vocação para resistir à inovação. Há alguns anos, uma visita a uma feira setorial de construção na Europa, Estados Unidos ou Ásia chocaria um engenheiro de obras de primeira viagem.

Sem demérito à nossa rica história construtiva e ao nosso patrimônio arquitetônico, com um domínio fantástico, primeiro de ricas técnicas de adobe e alvenaria e, depois, do concreto armado, técnica em que somos referência mundial, nos apegamos, no entanto, às nossas verdades, abrindo muito pouco espaço à inovação, seja por falta de intercâmbio tecnológico, raízes culturais ou aspectos econômicos. Felizmente, estamos mudando radicalmente, basta ver a qualidade dos empreendimentos construídos nas últimas décadas.

Como se constrói uma cultura de inovação? Podemos acelerar esse processo?

Tenho há muitos anos o desejo de contribuir para transformar o setor da construção. A criação da Campestrini Tecnologia em 2012 me levou a uma infinidade de lugares e experiências; gerenciei obras, vi soluções e também coisas que teria feito de forma diferente. Hoje, tenho apenas a certeza que a inovação é um caminho inexorável, e os instrumentos, as ferramentas, ao contrário do cenário daquele bandeirante dos séculos XVII e XVIII, já estão ao nosso alcance.

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A academia, a pesquisa, a vivência em núcleos de discussão sobre inovação são meu habitat. Mas desta vez eu e meus colegas estamos olhando menos para a gama de ferramentas maravilhosas. Nós queremos saber o que realmente pode ser disruptivo em nosso setor. Como algumas práticas, processos e tecnologias podem ajudar na criação de uma padrão para a indústria da construção, onde haja inovação, produtividade, previsibilidade e qualidade.

Na minha opinião, as maiores disrupções no setor da construção estão acontecendo há menos de duas décadas. E não foram a chegada de sistemas construtivos a seco, elementos industrializados, materiais de acabamento etc. Se pensarmos bem, os materiais e componentes são apenas elementos ajustáveis a uma ideia da construção. São facilitadores de um processo.

Dois movimentos importantes impactaram a indústria da construção como poucas vezes na história recente. Os esforços que culminaram com um modelo de produção parecido ao da indústria automobilística é um deles. A adoção do Sistema Toyota de Produção, apropriado pela indústria da construção e chamado de Lean Construction, tem e terá um alcance ainda difícil de mensurar. A outra grande disrupção recente da construção foi a chegada do BIM (Building Information Modeling).

Os conceitos que forjaram a Lean Construction e o uso do BIM na construção civil são movimentos comparáveis à chegada de um sistema inovador a um ambiente de produção travado e arcaico. Além disso, são elementos extremamente democráticos, que se ajustam tanto à gestão de obras tradicionais como às construções industrializadas. Nenhuma outra ferramenta de apoio à construção tem inovado tanto o setor como o uso do BIM e a adoção dos preceitos da Lean Construction.

“Os conceitos que forjaram a Lean Construction e o uso do BIM na construção civil são movimentos comparáveis à chegada de um sistema inovador a um ambiente de produção travado e arcaico.”

Como citado pela minha colega e sócia Alexia Motter, a construção precisa encontrar seus parâmetros de produção como de outras indústrias. Ao longo de anos de trabalho árduo de empresas de referência, informações sobre custos de obras e produtividade passaram a ser cada vez mais confiáveis. Agora, é preciso atacar os processos e torná-los replicáveis e previsíveis em qualquer obra. Para isso, as ferramentas de gestão de obras terão um papel fundamental.

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A natureza das obras, com variáveis de toda espécie, volatilidade de mão de obra, fluxo inconstante de recursos, interferências de natureza logística são um terreno fértil para o descontrole, a perda de prazos e problemas de qualidade.

Uma boa ferramenta de gestão de obras não pode ser um repositório de arquivos compartilháveis, com funções estanques. Sua finalidade é traduzir o momento de obra com dados que possam ser rapidamente interpretáveis por qualquer elo da cadeia de produção. E como uma ferramenta, as informações devem ser confiáveis, a despeito das características de equipes ou da figura do engenheiro de obras.

“A natureza das obras, com variáveis de toda espécie, volatilidade de mão de obra, fluxo inconstante de recursos, interferências de natureza logística são um terreno fértil para o descontrole, a perda de prazos e problemas de qualidade.”

Neste cenário, ferramentas de tecnologia da informação têm sido as grandes propulsoras de evolução nas indústrias, inclusive na construção civil.

A questão-chave é como pegar estes conceitos disruptivos e aplicar no seu empreendimento, projeto e obra. É utilizando os conceitos na prática que a bola de neve positiva começa a rolar, gerando mais interesse pelos respectivos conceitos. E para isso, ao buscar novas ferramentas, é importante entender os conceitos por detrás, ajustar os processos para receber as novas ferramentas, e não apenas buscar ferramentas para processos baseados em conceitos, muitas vezes, inexistente.

A terceira onda que pode criar um novo modelo de negócio na construção

Já citei em outro artigo um estudo da Mckinsey que mostra o setor da construção como um dos menos digitalizados do mundo. A falta de dados disponíveis e confiáveis não afeta apenas a intensidade da produção ou seus custos. Assim como os algoritmos estão permitindo ofertar serviços customizáveis através do refinamento contínuo de dados, os indicadores de produção são elementos vivos, capazes de apontar problemas e provocar a entrada de novos elementos em uma cadeia de produção.

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Em alguns países do mundo – e no Brasil de forma embrionária – começaram a surgir empresas que futuramente se comportarão como hubs de produção, reunindo tanto a organização de informações como também amparando logisticamente as obras com todos os insumos necessários, incluindo-se até mesmo equipes e tarefas reunidas em células de produção.

Imagine um grande mercado atacado para onde se pudesse enviar “pedidos” de produção, com todos seus insumos e mão de obra necessários. Acredite, isso será feito em breve. Reunindo marketplace, central logística de equipamentos e insumos, equipes de mão de obra rapidamente acionáveis em comunidades, departamentos para validação de projetos e muito mais, essas empresas serão em breve as montadoras do setor da construção. Em breve, a construtora das construtoras poderá ser a maior inovação do setor da construção.

A disrupção não está em robôs que executarão obras sozinhos (ainda que este dia há de chegar), mas na capacitação plena de grandes empresas de engenharia, fornecendo ferramentas e processos e tornando a construção mais assertiva, confiável, padronizável. Para que as atuais construtoras se mantenham competitivas, é fundamental conhecer as novas abordagens de produção, as ferramentas que podem validar e trazer ganhos ao produto. Afinal, se não há ganhos no processo ou na qualidade do produto não é inovação.

A disrupção não está em robôs que executarão obras sozinhos (ainda que este dia há de chegar), mas na capacitação plena de grandes empresas de engenharia, fornecendo ferramentas e processos e tornando a construção mais assertiva, confiável, padronizável. Para que as atuais construtoras se mantenham competitivas, é fundamental conhecer as novas abordagens de produção, as ferramentas que podem validar e trazer ganhos ao produto. Afinal, se não há ganhos no processo ou na qualidade do produto não é inovação.

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Tiago Francisco

CEO da Tecza, Diretor Técnico da Campestrini e cofundandor da Cinco Incubadora.

Referências

  1. Building Lean, Building BIM: Improving Construction the Tidhar Way (Rafael Sacks, Samuel Korb e Ronen Barak;
  2. Entendendo BIM (Tiago Campestrini);
  3. Introduction to Lean Construction and the Last Planner System (https://www.autodesk.com/autodesk-university/class/Introduction-Lean-Construction-and-Last-Planner-System-2014)
  4. Which Industries Are the Most Digital (and Why)? (https://www.autodesk.com/autodesk-university/class/Introduction-Lean-Construction-and-Last-Planner-System-2014)
  5. What Is Disruptive Innovation? (https://hbr.org/2015/12/what-is-disruptive-innovation)
  6. Bandeirantes e Pioneiros, Vianna Moog, 1954

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